Smith chegou

Sempre gostei de Matrix. No meu ponto de vista toda a estória tinha muita lógica. De um lado, um mundo virtual onde todos estão conectados e vivemos nosso dia-a-dia realizando tudo o que fazemos no mundo real. Uma vida paralela, digital.
Voltar Publicado em: 20/11/2019
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Sempre gostei de Matrix. No meu ponto de vista toda a história tinha muita lógica. De um lado, um mundo virtual onde todos estão conectados e vivemos nosso dia-a-dia realizando tudo o que fazemos no mundo real. Uma vida paralela, digital. De outro, a parte louca mas aceitável: homens usados como fonte de energia; a realidade como simples impulsos eletromagnéticos traduzidos pelo cérebro; interconexão e pessoas ligadas através de hardware e software; acesso a rede global de informações, etc. Quando o filme foi lançado eu já trabalhava fazia alguns anos com a Internet, por isso tudo parecia extremamente familiar e possível para mim. Como dizia Morpheu, o “eu digital”, na minha humilde concepção, era viável.

Apenas uma coisa não fez sentido em toda a trilogia: o fato de Smith, um pequeno pedaço de software, o anti-herói, sair da Matrix para interagir e afetar o mundo real. Isso era disruptivo.

Disruptivo é aquilo que causa disrupção; que acabe por desenvolver ou interromper o seguimento normal de um processo. Na TI é uma inovação que ajuda a criar um novo mercado e uma nova cadeia de valor, substituindo uma cadeia de valor previamente existente. Na vida, disruptivo é a quebra do paradigma existente. Na Matrix é o software saindo do mundo virtual e vindo afetar o mundo real. É o Smith.

Nos meus mais de 20 anos assessorando empresários, palestrando e ensinando empresas e empreendedores a pensarem sobre a Internet, ajudei a romper um paradigma: Levamos milhares de empresários para a rede mundial. Falamos de inclusão digital e como pensar o seu negócio na rede. Incentivamos e iniciamos a extensão das operações reais no mundo virtual. Muitos foram bem sucedidos e ainda são. Tudo parece certo, e está certo. Sou defensor de um conceito básico: você precisa ir onde seu cliente está. Hoje ele está na Internet, então não hã discussão, você também tem que estar. Eu defendo isso.

Entretanto, agora estamos vendo um novo paradigma ser quebrado. Ele dá o próximo passo e cria o, até então, impensável. Vou batizá-lo: Vou chamá-lo de Paradigma Smith.

O Paradigma Smith, ou essa inovação disruptiva, é a rede afetando o mundo real, é a via inversa, improvável até então. Smith é o software, nascido em ambiente virtual, afetando o mundo e a dinâmica do nosso dia-a-dia, nossas relações, nossa cadeia de valor, nossas crenças, nossas expectativas. É uma nova verdade sendo construída.

Talvez tenhamos acreditado que alguns modelos de negócios jamais seriam violados, ou no mínimo jamais paramos para pensar a respeito. Se eu viajo, a não ser que tenha parentes ou amigos no destino, como não pensar em um hotel, motel, hostel ou algo assim? Se quero jantar fora as opções são lógicas: restaurantes, lancherias, pizzarias, enfim, qualquer negócio devidamente estabelecido, estruturado, etc. Se me desloco, ou é público ou é privado, ou é “taxi”.

Smith nunca ligou para isso. Ele não se importa com os modelos que adotamos, muito menos com nossas verdades. Ele pensa que nossa cadeia de valor é inócua e por isso insignificante. Ele é superior, fala como tal e defende seus argumentos justificando-se apropriadamente.

Prestem atenção, pois Smith está entre nós. Smith chegou.

Compartilhamento de veículos, acomodações para pernoite ou estadia, jantares feitos exclusivamente por chefs em suas casas, entre tantos outros. Não são simplesmente empresas reais replicando ou estendendo seus negócios na rede. São novos modelos de business de lá, pra cá. É a rede virtual, na mão inversa, afetando e reestruturando a vida real.

Penso que a medida que evoluímos (e considero meus filhos muito mais evoluídos do que eu) aceitamos as mudanças mais facilmente. Os consumidores, já aos milhões de usuários, estão preparados, pois se adaptam às disrupções cada vez com mais facilidade mas a sociedade como um todo, talvez não. E o Estado, com sua reconhecida agilidade, certamente ainda não sabe o que está acontecendo.

Smith quer impor suas regras, criar seu mundo. Seus argumentos são bons e convincentes. Apesar de na Matrix ele ser um Anti-Herói, na vida real ele pode ser apenas uma nova alternativa. Novos modelos, novas abordagens, novas dinâmicas. Se você é consumidor aproveite; se você é empresário, no mínimo reflita. No Sul do Brasil dizemos: Onde passa boi, passa boiada. Smith pode ter aberto uma porta que não poderemos mais fechar, uma percepção de um mundo de compartilhamento de recursos, com maior sustentabilidade e produtividade, com novas regras e novos efeitos.

A partir de agora muitas verdades serão postas em cheque. Trabalhismo, investimento, imobilização, depreciação, retorno, legislação, tributação, fiscalização, entre tantas outras. É só o começo. E ao contrário da trilogia onde Neo (o herói que defende a sociedade que conhecemos) venceu, não nos resta outra alternativa a não ser desconstruir mais esse “castelo de verdades” e reconstruir um novo.

Como será a nova verdade? E até quando ela durará? Certamente o futuro dirá.

O que posso afirmar hoje é que esse novo Smith parece ser muito melhor, e mais bonzinho, que o de Matrix.

Pense...

#emfrente



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